“Antropo…. o quê?

Humanidades, ciência e divulgação em áudio”

Roteiro de Apresentação

Daniela Tonelli Manica

Milena Peres

Soraya Fleischer

ABERTURA

Daniela: Olá pessoal! Eu sou Daniela Manica, antropóloga e pesquisadora da Unicamp.

Milena: Oi, oi, sou Milena Peres, jornalista e mestranda em Divulgação Científica e Cultural no LABJOR, também na Unicamp.

Soraya: E eu sou Soraya Fleischer, antropóloga e professora da Universidade de Brasília.

Daniela: Nós três trabalhamos no podcast Mundaréu, que nasceu em 2019 com o objetivo de divulgar histórias de pesquisa em Antropologia. O podcast apareceu como uma mídia nova, acessível e cheia de possibilidades para explorar. Essa experiência nos levou a encontrar outras pessoas que tinham o mesmo objetivo e, pouco mais de um ano depois, nasceu a Kere-kere, uma rede de podcasts de Antropologia. E é por causa dela que nós estamos aqui, organizando e apresentando esse livro! O “No ar: Antropologia. Histórias em podcast” é resultado de um conjunto de experiências. O objetivo principal deste livro é mostrar o podcast como forma de divulgar ciência, em especial, a Antropologia, que é parte das Ciências Sociais e Humanas.

Milena: O podcast é uma mídia de áudio, que conta com vozes músicas, silêncios, respiros, choros, risadas e outras paisagens sonoras. E é produzido com conversas, entrevistas e depoimentos. A palavra “pod” tem diferentes origens. Tem gente que diz que vem de uma sigla, “program on demand”. Podcast não é como o rádio, que você liga e ouve o que estiver no ar naquela hora. Você, como ouvinte, pode escolher o assunto, o formato, o estilo e horário de ouvir. Pode pausar, ouvir de novo, mandar de sugestão para alguém que possa gostar daquele tema também. Os podcasts podem ser ouvidos no computador ou no telefone celular, a partir dos arquivos deixados nos sítios eletrônicos, ou em tocadores ou agregadores deste tipo de mídia. E há vários agregadores, também, pro gosto de cada ouvinte.

Soraya: Eu gosto também de outra explicação: “pod” é uma palavra em inglês que quer dizer “vagem” ou “casulo”. No caso da vagem, é legal pensar o bocado de feijõezinhos, favas, grãos que ficam ali juntos numa mesma planta. Gosto da ideia de termos semelhanças e estarmos reunidos, mesmo que cada grumo, cada semente, seja um pouquinho diferente da outra.

Daniela: “E o pod, pode?”. Brincadeiras à parte, neste livro queremos pensar como o podcast tem sido intensamente utilizado nos últimos dois anos pela Antropologia brasileira para falar e discutir como se trabalha e faz pesquisa nessa área das Ciências Sociais.

BLOCO 1: O pod pode divulgar, ensinar, fazer companhia

Soraya: Dani, por que você acha que o podcast pode ser uma mídia para fazer e falar de ciência? O que o podcast faz de diferente em relação a um artigo científico, uma coluna no jornal, uma palestra, por exemplo?

Daniela: Sóra, eu sou suspeita para falar, porque sempre gostei muito de rádio. E o rádio tem essa diferença em relação à televisão de ser uma mídia bem menos exigente: você pode escutar enquanto faz outras coisas, não precisa ficar “preso” ali, com a imagem, porque ela não está pressuposta. O podcast também tem a vantagem que as mídias por demanda trazem, como a Milena acabou de falar. Os podcasts de ciência ganharam os corações e fones de ouvido das pessoas muito rapidamente, pois podem ser ouvidos quando cansamos de trabalhar no computador, nos trajetos de deslocamento de carro, de ônibus, a pé.

Soraya: E eles desafogam os olhos, que têm sido super usados nesse momento intenso de uso de telas, né?

Daniela: Exatamente! Enfim, eles “cabem” em diversas situações.

Mas acho que a principal razão dessa explosão recente dos podcasts na divulgação científica é que eles permitem “dar corpo” aos pesquisadores, através da voz. E a voz transmite tanta coisa, né? Transparece as nossas emoções e nossos sotaques. Mostra o nosso pensamento em ação, acontecendo ali no calor da hora. Isso permite um tipo de intimidade com os ouvintes que é muito sedutora. As expressões orais como risos, gaguejares, hesitações, silêncios longos, e choro também, comunicam diversos sentimentos, como fascinação, medo, alegria, surpresa, revolta. O tom de voz comunica esses afetos todos com uma intensidade que nem sempre o audiovisual faz, e que o texto precisa usar de muitos recursos narrativos e gráficos para conseguir transmitir também. Nos podcasts, podemos contar as histórias dos feitos e fatos científicos humanizando cientistas, mostrando como a ciência é feita por gente específica, num mundo também específico.

As histórias narradas em áudio também liberam um espaço para a imaginação que o suporte visual entrega como fechado. Nesse sentido, os podcasts parecem também com a literatura… a gente ouve as pessoas sendo entrevistadas e fica imaginando como elas são e como são os lugares que elas estão descrevendo, fica imaginando como as histórias aconteceram ali. Tem uma abertura criativa para inventar uma versão toda sua dessas histórias e personagens, como nas histórias de ficção. Eu acho isso muito bacana! E ajuda a traduzir a ciência para quem não tem muita familiaridade com os termos, jargões e práticas. Ajuda estudantes a se interessarem por ciência.

Soraya: Estudantes podem aprender muitas formas de como escolher um tema, buscar e processar a bibliografia e depois realizar a pesquisa de campo. Os podcasts podem servir demais como recurso didático, dentro da sala de aula. Não só na universidade, mas no ensino técnico, na formação de professores, e ainda no ensino médio, fundamental e até infantil, a meu ver. Os podcasts, ao trazerem tantes antropologues, apresentam uma variedade enorme em termos metodológicos, éticos, políticos, né?

Daniela: Isso! Cativando ouvintes, a gente espera contribuir para uma revalorização da ciência, e em especial das ciências humanas, que têm sido pouco ou mal compreendidas. E essa é uma agenda política urgente! Pra ontem.

Soraya: Dani, na sua opinião, qual é a importância de uma cientista, um departamento, uma universidade fazer divulgação científica?

Daniela: Nessa pandemia, as ciências biomédicas sentiram na pele o quão importante é que a população tenha um mínimo de cultura científica para que as políticas científicas de saúde possam ser implantadas em situações trágicas, como a que estamos vivendo. Na Antropologia, a gente tem sentido isso também, com frentes que promovem o descrédito dos pesquisadores de humanidades, e com a perseguição política a pesquisadores e profissionais que atuam na área da demarcação de terras indígenas e quilombolas. Comunicar a ciência é fundamental para podermos construir um mundo mais justo, para cultivar um coletivo aberto ao diálogo e ao conhecimento sobre o mundo e sobre as pessoas.

Soraya: Tem um monte de palavras que a ciência usa e que só ela entende, né não? Por exemplo, “ibid”, que a gente encontra dentro de um parêntese depois de uma frase que veio entre aspas. É uma de tantas palavras latinas que entraram e ficaram na linguagem da ciência, mesmo que estejamos fazendo ciência num país em que se fala português. Todas essas características próprias do texto acadêmico têm sua importância, claro, mas não chegam em todos os contextos.

BLOCO 2: Os podcasts reunidos neste livro

Soraya: Como é composto este livro, Milena?

Milena: Este livro tem nove capítulos. Reúne o primeiro conjunto de podcasts de Antropologia que surgiram entre 2019 e 2020. Em cada capítulo, a equipe que produz o podcast conta um pouco sobre a sua história de criação e o formato escolhido para os programas.

Soraya: E os desafios enfrentados em cada uma destas etapas.

Milena: Isso mesmo, os desafios, soluções e aprendizados ao longo do caminho. Em 2019, surgiram os podcasts do Museológicas, da Universidade Federal de Pernambuco; o Selvagerias, da Universidade de São Paulo e o Mundaréu, que é feito em parceria entre o Labjor, Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Universidade Estadual de Campinas e o Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília. Também no final de 2019 nasceu o Conversas da Kata, da UnB.

Soraya: E em 2020, vieram o Antropotretas (Observantropologia), da Universidade Federal da Paraíba e o Antropólis, da Universidade Federal de Pelotas. Também o Sensibilidades Antropológicas, da Universidade Federal de Uberlândia, o Campo Podcast, vinculado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro e o Compósita, na Amazônia Paraense. Ao longo da pandemia do Covid-19, surgiram muitos outros podcasts. Aqui, reuniremos iniciativas de várias partes do país, é incrível como 2020 foi o ano da podosfera!

Milena: Então, dá para imaginar o mundaréu de gente que se mobilizou, equipes com docentes, discentes e técnicos destas universidades todas, para produzir estes programas. É tempo, recurso, gente, muito esforço e criatividade para apresentar a Antropologia para um público mais amplo. São horas de gravação e edição, e depois horas e horas de episódios disponíveis para escolher e ouvir. Este livro quer mostrar as muitas estratégias para produzir podcasts científicos, contando histórias de pesquisa, fazendo entrevistas, promovendo diálogos e mesas redondas, indo conhecer onde a Antropologia foi feita. Revelar os bastidores desse processo e mostrar que é possível, relativamente barato e muito promissor.

O livro também traz, a partir das experiências de cada uma das produções, as diversas possibilidades que existem para fazer um podcast. A pandemia de 2020 mostrou que é possível gravar online, à distância, e que até os ruídos ao fundo do áudio gravado em casa também viram conteúdo. Cada equipe que elaborou estes capítulos compartilhou, de forma muito solidária, como fez para definir temas e pautas, agendar conversas, editar, reeditar, publicar… e fazer o podcast acontecer! Contaram também algumas histórias que os episódios trazem, como a de uma pesquisadora num acampamento do MST, ou de uma mãe em busca do auxílio emergencial durante a pandemia, casos interessantes que povoam os episódios dessa rede de pesquisadores, a Kere-Kere.

Soraya: Esses seis podcasts têm chegado aos quatro cantos do mundo, a públicos muito variados, de dentro e de fora da universidade. E o livro é uma forma de trazer para essa mídia que a gente adora, e está tão mais acostumada a trabalhar – o texto em papel – um pouco dessa novidade. Mas a gente quer contar mais uma coisa para vocês.

No Mundaréu, em geral, a gente tem tentado adotar o feminino como genérico, na linguagem. Então, quando a gente fala de antropólogos no geral, falamos “antropólogas”, no feminino. Isso dá um efeito engraçado nas pessoas, especialmente nos homens, que acham que por causa isso a gente está falando só de mulheres, e não de homens também. Mas na verdade esse é um recurso feminista para que se pense naquilo que conta, e o que não conta, como “humano”, como “generalizável”. Isso é parte do que nós aprendemos com a Antropologia e as temáticas de gênero, que fazem parte das Humanidades. Gênero é linguagem, é cultura, e fala sobre relações de poder também. E as nossas experiências sociais – inclusive no mundo da ciência – estão pautadas pela centralização do poder entre homens. Nesse livro, nós sugerimos aos autores e autoras experimentarmos juntos uma outra estratégia nessa direção: o uso da linguagem neutra de gênero ao falar sobre as pessoas. Portanto, ao invés de fazer como fazemos no Mundaréu, ao usar o feminino como genérico universal, aqui vamos tentar usar a derivação em “e” para tentar “neutralizar” o gênero em uma forma não-binária (masculino/feminino), exceto quando falamos de pessoas específicas que têm uma identidade de gênero binária. Então vocês verão no texto antropólogues, pesquisadories, estudanties e outras palavras novas, assim.

Milena: É um pouco esquisito, a gente sabe. Foi esquisito também para nós e para es autories escrever desse jeito também, inventando, errando, experimentando e brigando com o corretor de texto. Mas “estranhar” as coisas é uma prática antropológica que a gente quis trazer para o livro, pra lembrar também que cultura e linguagem não são fixas. Elas mudam! E a gente acredita que muitos dos problemas que estamos vivendo hoje têm a ver com a desvalorização de populações minoritárias, como as populações LGBTQIA+, as mulheres e váries outres.

Fechamento: Leitoras para o livro, ouvintes para os pod e Agradecimentos

Milena: Para quem quiser conhecer a trajetória de criação e produção por trás de cada um destes podcasts, o livro será boa companhia. Quem são esses cientistas antropólogues? Como estudam com as pessoas? Quando e por que começaram a usar o áudio para falar de sua Antropologia? Os capítulos são curtos e escritos numa linguagem mais acessível para quem não é da universidade.

Soraya: As histórias contadas aqui estão muito legais. Queremos sugerir que vocês visitem os sites destes podcasts, assinem nos seus tocadores e sigam suas redes sociais. Alguns têm sítios eletrônicos com informações extras sobre os episódios. Há também o site da Rede Kere-Kere, onde você poderá conhecer estes e ainda outros podcasts que surgiram mais recentemente. Mas, sobretudo, sugerimos que vocês divulguem estes projetos em suas aulas, grupos de pesquisa, palestras e almoços de domingo com a família. A Antropologia fala de muitos temas que têm a ver com a nossa vida, sobre as diferenças entre os povos, seus hábitos e formas de viver. Sempre rende uma boa conversa e, de quebra, já serve para ir desfazendo preconceitos e mal entendidos sobre as diferenças des outres! Aproveitem essas histórias, vozes e risadas como companhia nos momentos de fazer faxina na casa, de lavar louça, de fazer exercício físico ou de circular nos carros, nos ônibus, nas caminhadas.

Daniela: E nos ajudem a divulgar esses programas tão bacanas justamente pra quem fala que as Humanidades não fazem divulgação científica, ou que não merecem financiamento porque não contribuem diretamente para o PIB, ou que simplesmente são chamadas de “inúteis”, “firula” ou de “purpurina”. As Humanidades, e a Antropologia em especial, ensinam a pensar criticamente, um ingrediente fundamental para uma cidadania mais plena. Há muita coisa boa sendo feita! Quando ouvirem, nos dêem retornos sobre os programas, para irmos melhorando a cada dia. Nosso e-mail é podcastmundareu@gmail.com. Procurem as redes sociais e páginas dos podcasts na internet. E mandem e-mail ou mensagem. Vocês vão achar essas informações nos materiais extras.

Milena: A gente agradece muito às autoras e autores que se dispuseram a contar sobre seus podcasts e às suas equipes que pegam junto na produção deste trabalho. Ficamos muito felizes com o prefácio escrito pela Bia e a Sarah, do podcast “37 graus”, e a contracapa, feita pela Simone, do podcast “Oxigênio”. E somos gratas também a todo apoio recebido do LABJOR e da Editora da Unicamp.

Daniela: Como vocês devem ter percebido, aproveitamos para escrever essa apresentação do livro já no formato de um roteiro do Mundaréu. Essa estratégia revela para vocês como nós produzimos o nosso podcast. E, mais importante, é uma forma de já entrar no clima desta mídia, desta forma de falar e navegar pela podosfera. Você vai poder ouvir essa apresentação, se quiser, através do QR Code que aparecerá abaixo, e nos outros capítulos do livro. É só apontar seu celular para o símbolo, que a página abrirá no navegador do seu celular.

Soraya: Agora, é sua vez! Vire a página, aperte o play e vamos lá!

 

Materiais extras

Site da Rede Kere-Kere

Site do Mundaréu

Site da Ellen Oléria

 

Minibios

Daniela Tonelli Manica é mãe, antropóloga e pesquisadora do Labjor/Unicamp. Estudou na Universidade Estadual de Campinas, foi professora no Departamento de Antropologia Cultural (IFCS-UFRJ) entre 2011 e 2018 e é professora no Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural (IEL-Unicamp) e no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (IFCH-Unicamp). Produz o Mundaréu e coordena o grupo de pesquisa Labirinto. E-mail: dtmanica@unicamp.br

Milena Peres é técnica em Publicidade e Propaganda, jornalista pela Universidade do Vale do Paraíba e mestranda em Divulgação Científica e Cultural no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp). Tem interesse nas áreas de corpo, gênero e tecnologia e suas relações. E-mail: milenacp1005@gmail.com

Soraya Fleischer é mãe, antropóloga e professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília. Estudou na UnB, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na Universidade de Johns Hopkins e mais recentemente na Universidade Federal de Santa Catarina. Produz o Mundaréu, coordena a CASCA (Coletivo de Antropologia e Saúde Coletiva) e pesquisa sobre a epidemia do vírus Zika. E-mail: soraya@unb.br

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Data de Publicação: 28/01/2021