“Fui pela primeira vez à ocupação de usuários de crack na esquina da Rua Flávia Farnese no Parque Maré, três quadras adentro da Av. Brasil, numa manhã de dezembro de 2013. O lugar em si já me instigou, pois se tratava de uma área liminar na favela, estruturada de antigos depósitos industriais e apartada das áreas residenciais e das ruas comerciais. Estava com Henrique Gomes, morador da Nova Holanda que então trabalhava na ONG Redes da Maré. A cena constituía-se de não mais que 15 barracos de lona preta que abrigavam os consumidores, os quais ainda acordavam, mas já nos olhavam de modo desconfiado. Ninguém conversou conosco. Henrique chamou por Vera, uma mulher negra de mais de sessenta anos, identificada como liderança local. Eu me apresentei a ela, disse vir de São Paulo e me apressei em dizer que não queria atrapalhá-la naquele momento, já que eu tinha intenção de retornar mais vezes para a realização de uma pesquisa. Era mesmo um primeiro contato.” (Taniele Rui, 2018, p. 63)

Nesse episódio, vamos conhecer todos esses personagens, Dona Vera, uma importante liderança local; Henrique Gomes, morador do Complexo da Maré e interlocutor central da pesquisa; e Taniele Rui, antropóloga e professora da Unicamp. Eles vão nos contar várias histórias de como é fazer pesquisa no Rio de Janeiro, na Maré, numa época após os grandes eventos esportivos e na convivência com consumidores de crack. E conheceremos como a antropologia interpela criticamente a dita “guerra às drogas”, a principal política pública que tem sido empreendida para controlar o tráfico e o uso de substâncias ilegais.

O impacto do Covid-19 nas comunidades de favela tem sido imenso. Se você quiser ajudar a Maré, há uma campanha muito bacana e bem organizada no site da ONG onde o Henrique trabalha. Na página deles, você encontra como doar bem facilmente: http://redesdamare.org.br/

 

Mais informações
– A citação acima vem desse artigo: RUI, Taniele. “Da deriva pela Av. Brasil à fixação numa esquina na Maré: usuários de crack refugiados da ‘pacificação’”. In: Juliana Farias, Lia Rocha, Márcia Leite e Monique Carvalho (orgs.). A militarização do Rio de Janeiro: Da pacificação à intervenção. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2018.
Currículo lattes da Taniele Cristina Rui.
– Henrique Gomes trabalha na Redes de Desenvolvimento da Maré, “uma instituição da sociedade civil, é resultado de um longo processo de implicação dos seus fundadores com o movimento comunitário no conjunto de favelas da Maré e, também, na cidade do Rio de Janeiro”.
– O Espaço Normal foi inaugurado em maio de 2018 como o primeiro espaço de referência sobre drogas em um território de favela.

Expediente
Apresentação: Daniela Manica e Soraya Fleischer.
Produção: Daniela Manica, Soraya Fleischer, Julia Couto, Vinicius Fonseca, Lucas Linardi Carrasco e Bruno Campelo.
Gravação: Danny Dee (Estúdio Rastro/RJ)
Transcrição das entrevistas: Bruno Campelo e Julia Couto.
Montagem e edição do roteiro: Soraya Fleischer e Daniela Manica.
Montagem e edição do episódio: Vinicius Fonseca, Lucas Linardi Carrasco, Bruno Campelo e Daniela Manica.
Autorizações para as músicas: Lucas Linardi Carrasco e Soraya Fleischer.
Conteúdo do sítio eletrônico: Soraya Fleischer, Daniela Manica e Bruno Campelo.
Divulgação: Milena Peres e Julia Couto.

Músicas, filmes e campanhas
– “Inventado” e “Corpo a corpo” do Canto Cego, uma banda do Complexo da Maré. A frase do título desse episódio, “Ideias derrubam velhos valores”, compõe uma das estrofes da segunda música.
– “Quem canta” de Danú e Tatá, uma dupla de cantoras de Brasília que embala sempre o Mundaréu! 

Agradecimentos
Clarice Rios, Danny Dee, Roberta Dittz e Canto Cego.